sexta-feira, 7 de março de 2008

Alforria





Acordei. Fui acordada com um beijo lindo e suave de bom dia. Acordei feliz da minha vida e como se tivesse dormido horas a fio, com uma disposição assustadora. Tive vontade de andar, correr, ver e falar. Uma vontade que veio do nada, do tudo e com uma leveza do corpo e alma que chegou a me amedrontar.

Tive, por alguns instantes, vergonha de estar tão alegre, medo desse instante acabar, achei que poderia ser um desses encantamentos que nós só lemos em contos de fadas. Respirei . Preferi largar de mão as bobagens do meu pensamento tolo e receoso e abraçar o sentimento bom que me invadia. Era uma sensação tão boa, que tive a impressão de estar vazando, transbordando, parecia que tinha qualquer coisa saindo de cada porinho meu.

Estava, comprometidamente e compulsoriamente, ligeiramente embriagada por estar feliz. Parei. Porém, não me permiti raciocinar, apenas atrevi-me a experimentar e saborear a impressão e sensibilidade do que estava sentindo. Futuquei, investiguei e conclui com meu coração que, puramente, estava meramente feliz. Ainda meio tímida, vasculhei meu peito e não encontrei angústias, ansiedades, aflições nem agonias. Eu era só um corpo abarrotado de felicidade e paz.

Tomei um chá, chá de alecrim para me manter calma, serena e me aceitar por inteira naquele momento de harmonia com o cósmos. Sim, era assim que eu me sentia, em completa sintonia com o mundo e todos os seus seres, visíveis ou não.
Ao encarar de frente minha nova condição de estar feliz, vi no espelho do meu banheiro outra pessoa, essa pessoa sorriu! Sorriu para mim. Era eu que estava sorrindo para a vida.

Permaneci alguns instantes observando aquela mulher de meia idade. Reparei cada detalhe do rosto dela. Como ela era bonita, carregava no rosto algumas marcas da vida, mesmo assim era bonita. Tinha uma beleza doce, sossegada e amável. E ela era eu impregnada da plenitude da vida e do amor. Nua e despida de todos os pensamentos e teorias preconceituosos que me mortificaram e torturaram nesses dois últimos anos.

E, lentamente, como se fosse uma magia ou um feitiço fui admitindo minha capacidade de estar feliz. Fui, vagarosamente, enxergando sem conflitos que o bem-estar e o contentamento existem em qualquer lugar do mundo. Reconheci que posso viver suavemente em quietude mesmo num lugar atormentado e inóspito, porque, de repente, me dei conta de que não estou só feliz. Sou feliz.
Não hesitei em entregar-me à felicidade. A mesma felicidade que me tomou por inteira hoje ao acordar, já existia dentro de mim. Era eu quem, conscientemente, abafava, sufocava e acorrentava esse sentimento, talvez, por pudores ou acanhamentos.

A partir de hoje, entro num novo estágio de percepções, eu me alforrio, eu me liberto, deixo que liberdade tome conta de mim, eu ouso e me autorizo a sentir toda e qualquer emoção, irresponsavelmente e ofensivamente, sem culpas e também sem me preocupar se o que sinto ou o que sentirei vai causar danos ou escandalizar os demais.

Um comentário:

luiza.aquino disse...

Impossível naum ficar inebriada com tamanha felicidade... Pois é, esse é o preço q se paga por ser, simplesmente, vc!
Bjus