segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Não daria

Não daria para dizer não depois de tudo que foi realizado, enfrentado e alcançado por ela,
Não depois de ela desenhar em seu rosto as marcas dos guerreiros mais bravos e valentes,
Trocar a roupa brilhante de festa pelas penas coloridas e colares de sementes,
Tirar o scarpin, pisar na terra vermelha e adornar sua cabeça com um cocar de cores vivas,
E de berrar, clamar e dar o mais agudo e violento grito de guerra.

Não depois de partir para a luta e retornar com a cabeça do inimigo nas mãos.

Já pronta para as comemorações, recebimento de condecorações e medalhas
Recebi a notícia pelo mensageiro, que ela iria festejar em outro povoado,
A fraqueza me tomou de assalto, minha capacidade de pedir sua presença esmoreceu,
Com certeza, teríamos outros festejos, exaltações e instantes de glórias para estarmos juntas,
E fiquei ali acocorada, quieta, emudecida, só com meu imaginário tolo e simplório.

Eu não tive coragem de verbalizar meu pensamento elástico e alegre,
Deixei fluir seu contexto de vida com suas conexões e expressões secretas e sagradas,
Era um pedaço de vida cheio de momentos sabidos e esperados,
Ela guerreou cada batalha e, merecidamente, venceu a faustosa guerra.


Fantasiando como poderia ter sido belo celebrar amplamente todas nossas narrativas,
Permaneci pacífica e sossegada ao ver o sequestro do meu sonho,
Sonho sonhado por incontáveis noites em preces e inúmeros dias sem fim,
Porém, eu não podia edificar meus sonhos mais sonhados impondo-lhe minhas vontades infantis,
Teria que (re)construir, lentamente, todo o registro da explosão da alegria que veria em seu rosto.


Precisei aprender, compreender e apreender o saber do seu "não-estar",
Resgatei forças dentro do meu surreal mundo para entender,
Que não se vive de um fragmento de momento, vive-se uma vida por inteiro,
Plantaria meus pés no chão naquela aldeia e vibraria com a nova tribo,
Os brotos de contentamento desabrochariam em luzes violetas.

E então a Mandala rodaria e emanaria toda a luz e o bem-querer para outra tribo distante,
De longe, mas bem de perto, o ritual seria compartilhado e o cerimonial cumprido,
O rito de passagem, transição de um período para outra vida seria sentido e ouvido,
Não só pelos rufar dos tambores mas também pelo estado de uma nova consciência,

Renascida como Fénix, alcançaria a lucidez de perceber que a iniciação através do ritual,
Com transformação mais profunda de personalidade da pequena Juçara,
Se dá, independente, do Pagé, se dá associado a uma missão cumprida,
Ricamente tatuado pelas imagens que serão para sempre mantidas no consciente,
Com toda a linguagem, simbolismo e sonoridade debruçadas e embutidas na ocasião.

Situaria e sintonizara meu EU como instância de desconhecimento e descontentamento,
Ilusão, alienação, Psique egoísta e sede do meu infinito narcisismo,
Introspectaria que a roda gira e o signo mais real, o significante
Precede e determina o significado.

Não, não daria!!

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Querer

Mulher-Muralha feita de verdades e vontades,
Fêmea-Minimalista surgida das poucas porções de vida,
Pessoa-Indefinida forjada pelas incertezas não vividas,
Criatura-Montanhosa de grandes dimensões e pequenas decepções,

Quero minha parte oculta e escura onde pouso descansada,
A luz ofusca a visão e perturba o razoável,
A cabeça dói e lateja por ser quem queria não ser,
Tarde, muito tarde para mudar de direção,

Misturas de coisas sentidas e passagens lacônicas,
Uma estrada coberta de poeira e barro deslizante,
Os escorregões e as fissuras nos joelhos são bem-vindos,
Provas na carne do trecho percorrido e machucado,

O terço entre os dedos, a guia no pescoço, a bíblia nas mãos,
Símbolos, sinais e arquétipos de fé,
A abertura para o novo entopem os ouvidos,
As vozes se confundem como se vindas do além,
As palavras já não mais se decodificam,

Quero um local povoado pelo silêncio e gente,
Gente vinda com a calmaria da morte,
Quero a cama quente e meus lençóis frígidos e frios,
Quero a lama do pós-chuva, a sujeira do mar pós-ressaca,

Arar minha vida, sugar o ar e ser engolida pelo deserto árido,
Enterrar mortos e vivos, desenterrar mortos-vivos,
Vagar por entre almas e de sobressalto ter o imprevisto por designo,
Sulcar cada centímetro de sopro de vida e viver,

Quero a presença, o espírito, planos e metas.
Quero.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Transparência




Então foi assim, uma surpresa. Nem agradável, nem desagradável, apenas mais uma surpresa que meu coração já anunciava há algum tempo.

Respeito

Pessoas têm comportamentos comprometidos com seus momentos de vida, agem de forma mais ou menos coincidentes com suas verdades e mentiras dos seus "agoras".
Porém, isso pode variar de pessoa para pessoa e estar ou não em concordância com seus espaços de tempo, mas transparecem suas certezas ou incertezas muito claramente aos meus olhos.

Acalento.

Gostaria, realmente, de ser pega no ato, mas minha percepção antecipada e aguçada, normalmente, me poupa do sobressalto e do inesperado, tornando, por vezes, a vida meio sem graça.
Porque o interessante é não prever e sim viver.
Mas no estágio em que já me encontro, não dá mais para lutar contra a natureza do meu self.
O negócio é enfrentar, segurar a minha onda, dissimular, me fazer meio de idiota e até posar de violeta com cara de hortência em várias situações.

Individualizo.

Não foi de propósito e nunca quis me passar por bruxa.
Foi uma coisa inexplicável, instintiva, irreparável e involuntária que foi crescendo comigo e eu, de minha parte, fui aprimorando desde sempre esse "dom".
O motivo é hiper simples de se compreender; era interessante e fui sendo levada e atraida, cada vez mais, por prever atitudes, palavras, gestos, sentimentos e decisões do "outro".
Nada passa turvamente pelos meus seis sentidos.
Tudo chega muito de mansinho, tranquilo, cristalino e irretocável.
Felizmente ou infelizmente nada escapa da minha alma.

Acato.

Talvez por ter sido uma menina muito calada e quase sem amigos, meu divertimento era observar quem estava no meu "em torno", com isso fui ganhando um conhecimento, meio que empírico, mas razoavelmente profundo dos seres humanos. Eram olhares, gestos e atitudes, palavras e o próprio calar das pessoas em minha volta que me fizeram enxergar além do que está sendo dito e feito.

Experimento.

Às vezes chega a ser uma coisa um tanto quanto incômoda e inquietante, pois nem sempre posso me expressar genuinamente, para evitar de passar por intrometida, presunçosa, metida e até mesmo A CHATA, e é nesse momento que o silêncio se apodera de mim.
Engasgo com meus pensamentos, embatuco, emudeço de verdade e oculto as palavras só para mim.

Silencio.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Pupa

Ela é linda, forte, sensível e não teme o predador,
Dentro da sua crisálida de cor dourada, vai preparando-se para seu grande vôo,
O processo de crescimento dentro do casulo, tem sido lento e saboreado,

O primeiro bater de asas dói, pois deve ser rápido e brusco - Vida.


Aconchegada nessa casquinha, assusta-se com o barulho de outras asas,
Intimida-se e desconfia que não será capaz de voar tão alto,
E curiosa em saber quais serão as suas cores futuras, ela sofre,

Sofre a dor da incerteza, a dor do crescimento, a dor do destino - Rito de Passagem


Tudo que é doído, suado e sofrido, quando passado tem sabor encantado,
Sabor de legítimo, de autêntico, sabor de mito ultrapassado,

Ela sabe que vai voar alto e que suas asas serão multicores,

Porém, não está dispensada das manifestações do incerto - Natureza


A fada vai chegar com poções de alívio e acalento,

O mago traz a confiança embrulhada para presente,
Seu vôo fundamental e primeiro será sentido como solitário,

Mas a fada e o mago estarão voando ao lado de sua alma - Pais

O sucesso do imago é inevitável, restarão lembranças e memórias,

Do casulo, da crisálida, da dúvida e do primeiro vôo,

A borboleta, então, estará se alimentando do néctar doce e esperado,

Ela encara a fase adulta exuberante e certa das cores de suas asas - Metamorfose completa

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Simplesmente





Queria muito esse querer, parecia orar por isso todos os dias,
Queria juntar-se e não mais sentir-se isolada, aguardava resoluções,
Porém, nada estava na sua alçada, tudo dependia da conjuntura,
Da infra-estrutura, da ocasião, do mérito e da pirâdime estrutural,
A qual já havia sido requintada, requentada e paralisada,

Nesse questionamento "aguardativo", ela espiava dois grupos distintos de criaturas,
O primeiro composto por pessoas desvalidas de sentimentos e fortemente guarnecidas de contruções abstratas,
Com capacidade cruel de descarregar todas suas frustações no seu outro
Fundamentados em suas mitomanias crônicas, essas criaturas vão elaborando estórias,
Se construindo e se compensando nelas e através delas,
Tentando tapar suas camadas de ozônio mentais com fantasias e narrativas fictícias,
Abalando e pervertindo o equilíbrio dela,

O segundo grupo formado por sujeitos capazes de acalentar e olhar,
Desnudados de maldade e forjados na flexibilidade do ouvir,
Nus e de pés descalços massageiam a areia molhada e macia da praia morna,
Com comportamentos maleáveis e adocicados, são esses seres que despertam,
Nela um repertório de transições, mutações e mudanças enriqueceroras,

Ela quase sempre habita seu lado de fora do mundo, numa forma enlouquecida de convivência,
A demência, vez ou outra, apodera-se dela; porém, quanto mais lucidez e sensibilidade ela tem,
Mais sofrido é viver regras impostas pela sociedade que, normalmente, a sufocam e estrangulam,
Ela fica grande e sábia quando encontra em si mesma os ítens que quer alterar,
Ela não quer mudar nem trapacear, ela quer transgredir, superar e ser superada,

Ela deseja ser o meio, a equação, o "entre", o ponto médio, nem boa nem má, apenas ela,
Quer o pacto das duas partes, o ressoar e o entoar do resultado da reinvenção do bom,
Quer o vínculo, o elo, a ligação, a bússula, a semente na terra, o fruto no pé,
Ela quer vida, vida vivida, vida sabida, vida inventada, vida brincada, vida verdade,
Quer tradição, eterno, perdão, paixão, cabeça na lua e muito pé no chão,


Ela não quer fórmulas, não quer receitas, não quer paradigmas, não quer parâmetros, nem dogmas,

Quer somente o bom e o equilíbrio entre forças e grupos ,

Quer a senóide dos sentimentos, a negociação com a dor e o acordo com a alegria,

Outra vez, ela quer ser a absoluta e real justaposição, a relação vertical e a congruência.


Seu desejo profundo e exclusivo é ver e sentir o regular, o coerente, o ordinário e o harmônico,

Ela quer simplesmente o simples.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Ela


Fera enjaulada, fera aprisionada, fera encarcerada, fera enclausurada, fera acuada
É assim que se sente quando é contida, ela é gado em pastagem, ela é solta.
É de um só enquanto pode sustentar-se em suas grandes asas pelos céus da cidade,
É de muitos quando tem a sensação de voar em bando reprimida,
É de todos no instante que prevê seu calabouço, ela águia.

Ela é dispersa, volumosa e volátil, ela é ar, gás, energia, vibração,
Tudo dela é em curta metragem, rápido, ligeiro, ela é trovão e chuva de verão.
Dispensa as overdoses, agradece os discusrsos, não gosta de palestras,
Nada pode demorar mais que o tempo de um raio rasgando o espaço, ela é velocidade.

É angustia da sentença, é de amores passageiros, é de amantes grosseiros,
Selvagem por natureza, não se importa com seu cio, foi talhada na luxúria,
De prazer em prazer vai moldando sua carne fresca e fundindo-se em outros,
É pura, singela, natural e simples; porém, agressiva, áspera e adversa.

Desconstruiu seus castelos de areia e montou sua choupana de amores,
Ventou em pradarias , cantou em guetos, berrou aos quarto cantos do mundo,
Choveu em caatingas, respingou-se em areais e queimos-se nos cerrados,
Desativou bombas amorosas, torpedeou pares e alavancou catapultas de vida.

Prefere vinho porque tem a cor de sangue, bebe champanhe pelas bolinhas,
Pise firme e sem dó, pisa no chão, pisa na grama e esmaga quem passar na sua frente,
Dura e acre, formou-se da vinagre azeda e levedou-se em diferentes massas,
Doce e meiga, criou-se para a festa, para crença, para missa e para o circo.

Ela encanta enquanto canta, ela dorme enquanto chora, ela falece enquanto perece,
Ela é universal, própria, não tem donos, coleiras ou amarras, ela é de todos,
Ela é só e ela é plena, ela é esperanto, ela é mundo,
Ela abrange tudo, ela vem de mim e de você. Ela somos nós.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Luz







Fingiu que acreditara que a romaria era para ela e sorriu sorrisos de malevolência e piedade, posou de vadia arrependida e se fez santa.
Fez de conta que se arrumara para a ocasião, fechou seus olhos grandes e vivos para toda desfaçatez, simulou, desavergonhadamente, cada gesto e palavra.
T
udo pensado, calculado, preparado para a frieza do calor do descaramento da mentira, hipocrisia e sarcasmo. Participou da brincadeira de circo e de farsa.
Apresentou-se no palco, não como palhaça, mas como a dama da comédia.

Ela nem se importa, segue aprumada, altiva, empinada e delirante,
Aprimorando cada vez mais seu jeito malandra de viver,
Sem retoques ou toques que possam lhe impedir de ser única,
Ergue-se majestosa, apimentada e recheada de trejeitos,
No meio de toda gente, ela é quem quer ser,

Cobiça o tempo que perdeu, goza e deleita-se em si mesma,
Corrige o baton vermelho que escorreu da boca. Compõe-se,
Ajeita o sutiã pousado nos ombros, retira o bandaid,
E endireita a alça do escarpin preto no calcanhar esquerdo,

Vira-se como pode, vira-se de ponta cabeça, vira-se do avesso,
Arranca o melhor de toda situação e a farpa do dedo
com os dentes,
Mulher brava e despudorada gargalha ao lembrar dos seus pormenores,
Compadece-se dos podres de espírito, geme, murmura e balbucia palavras sem nexo algum, para encobrir o que, realmente, sente,
Acha graça dos empinados, pernósticos e afetados e dos sem limites de modéstia,
Caçoa e zomba da pompa e da circunstância, supostamente, montada para ela,

Odeia comida japonesa, acha sem sabor; porém, aprecia o colorido,
Prefere o vatapá, caruru e o acarajé quente, muito quente,
Bebe pouco e assume, sobriamente, seus atos, atitudes e conduta,
Adepta da verdade, coagida, aprendeu a rodopiar nas rodas e na marra,
Transita muito solta e leve entre as órbitas sociais e urbanas. Impõe-se,

Desconfia de falas mansas, é partidária da linguagem forte e indomável,
Caprichosa, capciosa e ardilosamente vai cintilando e sobressaindo-se,
Nos giros, rotações e movimentos da vida, ela prossegue límpida e cristalina
Fulgura e circula clara e na claridade com clareza - é, claramente, luz.





sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Adeus!





Pensando na vida, linda, que terá dentro de poucos dias, ela sonhou,
Previu, filmou e decifrou cada pedacinho de tudo que viverá,
Cada brisa fresca que irá sentir no rosto ao dirigir novamente,
Livre e delicadamente vai "passar as marchas" do seu carro,

Racionalmente, certificou-se de sua carteira de motorista - válida,
Verificou seus cartões de crédito, talões de cheque e antiga "poupança",
Tudo acertado, combinado, preparado e aguardando por suas assinaturas,
Ela irá ao mercado, à feira, ao banco, ao salão e todos a cumprimentarão,

O bom humor e a alegria da cidade vão abraçá-la,
Todos falarão sua língua - ela não será mais uma estranha,
Dentro do seu ninho, junto da sua liga e perto dos seus iguais,
Ouvirá sotaques, regionalismos, comerá arroz com feijão,

Reconhecerá rostos, cheiros, lugares e cantos a cada passo que der,
Renascerá, mais uma vez, para as possibilidades futuras,
Permanecerá saudosa, agora dos novos amigos que fizera na arena,
Viverá instantes de emoção que ficarão tatuados em seu coração,

A hostil e agressiva vila decidiu dar-lhe os ares de despedida,
Com o céu azul, a lua de prata e dias de sol e calor,
O vilarejo cobriu-se de cores suaves e pessoas afáveis,
Nunca é tarde para se amar uma aldeia a distância, though,

Ela subiu no palanque, discursou, agradeceu e acenou,
No coreto da praça, viu pessoas choramingando a saudade,
Observou outras tantas indiferentes e inértes à sua saída,
Saída brusca, saída feliz, saída triunfante, saída doída,
Doída por deixar sua única boneca sozinha sobre a cama que dormira,

Não pode dizer que foi infeliz ou desgraçada,
Pelo contrário, existiram momentos lindos e dias de amor,
Chamegos, cafunés e carinhos; porém, recheados com saudades,
Saudade que doeu doída, arrastada e em branco e preto,

Ela parte escoltada pela Esquadra da Crença na Amizade,
Ela parte acompanahada pela Esquadrilha da Gratidão,
Ela parte seguida pela Cavalaria do Reconhecimento,
Ela parte conduzida pelo Esquadrão do Amor e da Plenitude.

Ela sai de cena!











terça-feira, 9 de setembro de 2008

Malas







Concordo, aposto, aceito os conceitos,
Releio "pré-conceitos", crio acessórios,
Rimo os ritmos, brinco com as palavras,
Não me enquadro às regras preconcebidas,

Frustações existiram, decepções dispersaram-se,
Sentimentos trabalhados e tarja preta ingerida,
Rejeições e repulsas foram inevitáveis,
Somos todos seres humanos em construção,

Digeri o remédio, assimilei os efeitos e esbanjei bem-estar,
Reconheci o estrangeiro, o estranho e neutro,
Exorcizei meus demônios, os gênios do mal e os espíritos malignos,
Optei pelas fadas, anjos, santos, duendes e purezas,

Seduções, cheiros, inconstâncias, fantasias e caprichos atendidos,
Enganos, danças, encantos, desencontros e o meu desencanar,
O ouvir, o escutar, o dizer, o falar, o andar e o caminhar,
Tudo parte desses seis sentidos que me fazem amar,

Não há mais tempo para o pensar só e o examinar,
A introspecção fica aguardando na velha caixa de retalhos,
Espera, passiva, sem fúria, sem medos e sem agonias,
O deleite da colcha, o regalo da concha e a delícia do côncavo,

Urge e surge a mala ríspida, rígida, austera e severa,
Preenchida de aplausos, abraços, acolhimentos e algumas alucinações,
O estrondo do retorno sussura leve e suavemente pelo contorno do cosmos,
A tríade, a trindade e o trinômio seguem,
Cantarolando, unidos, um mesmo refrão,


segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Ancorando



Ela parecia ter conhecimento dos fatos que lhe iriam acontecer. Meio bruxa, meio fada, sabia que teria que ter forças para lidar com aquele mundo novo. Ainda que meditativa, relutante e desorientada ela embarcou naquele navio. O balanço do mar revolto fez com que ela ficasse enjoada e, inevitavelmente, ela vomitou. Vomitou o vômito mais amargo de sua vida, uma coisa sem cor vinda de suas entranhas mais profundas. Ninguém viu. Ela calou-se.

Destemida enfrentou furacões, amedrontada encarou a deriva da embarcação e fez daquela travessia, consistente e áspera, sua fonte de energia. Buscou, sem mediocridade, encontrar graça na viagem. Acredita que teve êxito, pois passou por certos e momentâneos instantes de prazer.
Machucou e foi machucada pelas tábuas do deque atingido, soltou gritos mudos para se fazer enxergar. Nada viu. Ela cegou-se na solidão.

Reparou em cada pedaço de gente encostada ao convés, aquela gente parecia encantada com uma flauta que nunca tocara. Era um pessoal adormecido e robotizado pelo comandante daquela construção destinada a navegar em mares irados, lastimosos e severos. Ela manteve-se atenta aos vasos, já sem flores e confirmou-se só, pode contemplar, sem pressa, uns cubículos onde toda a gente dormia e chamava, maravilhada, de cabine.
Viu, com melancolia e uma incapacidade heróica de ater-se ao que era visto, o passadiço e o calado do navio. Ela agitou-se.

Porém, deliciou-se e perdeu-se em seus pensamentos quando pousou seus olhos na âncora vermelha. Naquele instrumento náutico, metálico e em forma de cruz, estaria a solução para o final da travessia, era uma questão de tempo. A âncora fixaria, temporariamente, a embarcação em fundos rochosos, lodosos ou arenosos. Ela nadadia incessantemente até sua primeira praia.
O vento soprou forte e contrário e as almas escolhidas ainda não estavam prontas para o porto.
Ela cambaleou.

Porto escolhido, porto expremido, porto escavado, porto feito por outras almas.
A euforia tomou conta da moça de forma rápida, intensa e retilínea. Não haviam mais dúvidas sobre o aportar. O navio iria atracar a qualquer momento.
E ela não mais contaria as horas na sua antiga apulheta de areia colorida, não mais choraria a saudade da princesa, não mais reinaria absoluta no coração e no corpo do rei. Ela estava recoberta por encantos, fascinações e explosões de exaltação. Ela estava em estado de graça!
Teria que dividir e ser divida, mas estava inteira, completa, perfeita. Aos gritos de sorte, prazer e satisfação, ela chorou. O choro mais doce de sua vida. Choro de contentamento. Ela riu-se, gargalhou-se, emocionou-se, sentiu o mundo rodar e rodou com ele.
A carta, enfim, seria assinada!

Carta assinada, destinos selados, âncora ao mar!
Ela iria se vestir com todas as
cores do mundo e, lentamente, saborearia a descida da rampa da embarcação grande e prestigiosa, avistaria de longe a princesa e todo o seu reino de volta. A vida teria sentido outra vez. Entretanto, um tanto infeliz e atordoada, lembrou que os encantados e adormecidos permaneceriam em repouso total. Somente as almas cristalinas e serenas poderiam ver e sentir junto com ela. Ela é certeza.

Certeza de aportar, certeza de estar viva, certeza de amar, certeza de ser amada.
Avante, meu comandante!


terça-feira, 2 de setembro de 2008

Chegada












Não me entrego fácil assim, vou inventando diversão,
Tirando do bizarro um sarro, condicionando meu coração,
Lembrando para não ser esquecida,
Andando, às vezes, sem rumo; porém sempre seguida,

Espiando aqui e alí, inspirando o ar denso,
Expirando, sem pressa, o fluido tenso,
Mastigando o presente vivo,
Ruminando o passado já lido,

Não me entrego fácil assim, reinventando a graça,
Desistir jamais, concentrar, que com certeza, passa,
Transpassando e enganando o mundo,
Procurando encontar a luz do meu fundo,

Razoável, entendível; porém, tecnicamente,
Misterioso, enigmático e independente,
E com uma grande dose de realidade,
Revisando e resgatando a objetividade,

Vou chegar bem de mansinho,
Na surdina, com o céu muito estrelado,
Assustar, mas com carinho,
E abraçar muito apertado!









sábado, 30 de agosto de 2008

Ode


Esta página é integralmente dedicada à mágica da amizade.

Uma verdadeira, leal e sincera amizade que começou com uma tímida e simples tortinha de bluberries sem açúcar - minha nova amiga não deve exagerar nessa substância extraída da cana de açúcar. Respeitei.

Provavelmente ela nunca venha a ler a página feita por ela e para ela. Não me sinto ofendida, desdenhadada nem desprezada. Entendo.
Entretanto não consigo calar, pois quando meu coração e cabeça se desassossegam, as palavras e sentimentos se alvoroçam dentro de mim, é escrevendo que encontro minha quietude interior e inteira.

Nossos universos são absolutamentes distintos, somos quase água e vinho. E é isso que faz a beleza e leveza da nossa amizade e minha admiração por ela é enorme. Nos aceitamos e nos gostamos do jeitinho que somos uma para a outra. Não disfarçamos. Aprecio

Sorriso aberto, pensamentos livres, criatividade à flor da pele, sensibilidade saindo pelos poros, atitudes doces, conduta correta, muitos filmes e muita leitura- Essa é ela, minha amiga.
Em cada encontro o prazer da troca, o prazer de vê-la, de tê-la por perto, o conforto nas horas doídas e as broncas quando eu saio do salto. Tudo é sempre muito bem-vindo. Tudo muito querido, quero um bem enorme à essa criaturinha delicada e amável.

Magia construtiva e agregadora de uma amizade embebida em conversas infindáveis, cursinho básico feito juntas, fofoquinhas inocentes, novidades vindas do Rio e de São Paulo, algumas compras, cumplicidade de pequenos segredos, boas discussões, divergências de opiniões e filosofias. Porém, tudo nos mantém unidas e reunidas nessa nossa chuva de verão.


Sabemos no fundo de nossos corações que nada é para sempre, nada é eterno, amanhã não será como está sendo hoje, pois essa chuva tem dia e hora para estiar.
Não projetamos nossos futuros nos incluindo uma na vida da outra; porém, de vez enquando combinamos algumas poucas visitas que nos faremos.
Não nos iludimos, não nos enganamos, não fazemos juramentos de amizade eterna.
Apenas fecharemos nossos guarda-chuvas. Somos humanas, hoje somos amigas e pronto.

Quando o sol voltar a reinar imperioso e impiedoso no céu da pátria amada, cada uma vai seguir o que já havia planejado para seu curso de vida, rever os antigos amigos, (re)examinar projetos passados e fazer novos planos para os próximos anos.
Cada uma vai levar em si um "tiquinho" da outra e jamais seremos como éramos antes de nos conhecermos. Trocamos, dividimos e aprendemos.

Eu, de minha parte, leverei comigo memórias, fotos, lembranças, saudades, ternura, simplicidade e a meiguice da nossa amizade.
Partirei carregando no container da vida, um pedaço da minha história que contarei a meus netos.
E nesse capítulo da chuva de verão constará com muito carinho, zelo e chamego você, minha amiga.
Direi-lhes quão bom foi conviver com você e, em detalhes, tentarei desenhar sua figura singela; porém, valente e guerreira, aos olhinhos deles.
Mas se depois dos nossos guarda-chuvas fechados ainda for possível nos vermos, levarei as crianças para aprenderem a tomar chá na sua sala de estar.

Levo a tortinha, desta vez você escolhe a fruta, que pode ser; goiaba, açaí, abacaxi, umbu, banana, sapoti, cajá, caju, graviola ou jambo, qualquer fruta, desde que, radicalmente, tropical!

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Taças




Meu
rio está cinza chumbo, meu céu azul, minhas nuvens brancas,
Meu café preto, meu cabelo castanho, minhas flores liláses,
Meu sangue vermelho, minha pele amarela, minhas uvas roxas,
A cidade coberta e recoberta de verde e amarelo,
Minhas unhas francezinhas,

Cores se misturam, estações mudam, lugares se substituem, pessoas se transferem, se deslocam,
As caixas não são sufucientes e minhas coisas se reproduzem,
Entre idas e vindas do tal "refuse closet", vou me desfazendo de tudo o quanto posso,
Jogo fora o novo, jogo fora o velho, jogo o que não consigo levar comigo.

Levo pouco, não preciso de muito,

As buzinas ecoam, as sirenes berram, o povo corre apressado.
O equilíbrio, vez ou outra, falta, forças iguais e contrárias, tudo na proporção devida,
Uma indefinição grave e heróica, a certeza magnífica com dimensões reduzidas,
O telefone toca, mais uma cilada, mais uma charada não decifrada,
A porta se abre, o vinho não chega,

As taças, já empacotadas, tranquilas aguardam por serem usadas,
A alforria se retarda, os negros permanecem com seus gritos entalados,
As gargantas sufocadas, abafadas e reprimidas,
Dependem do fio da navalha afiada,
Para, enfim, gritarem: "LIBERDADE"

A princesa tarda em assinar tal carta,
Não há pressa, o quartel encontra-se em prontidão,
Será com desembaraço e agilidade que os soldados pegarão suas armas,
Não são armas de fogo nem de matar,
São as armas da brandura e da bravura,

Nada religioso, tudo misterioso,
A fé é acionada com constância e veêmencia,
Fechando a composição física, energética e espiritual,
Nenhuma mossa, nenhum trincamento, nada fragmentado,
A linha cósmica prossegue intacta,

Modificando corpos, matérias, canalizando ações e revitalizações,
Mantendo o bom e estimulando o excelente,
As cores vão se transformando,
Os barulhos externos cessando,
E sobram esperanças, probabilidades, expectativas.

Vivo, vives, vive, vivemos, viveis e vivem


quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Copo d'água




Hidrate-se. Porque não há como evitar. Lágrimas sempre vão rolar.
Vamos nos emocionar, vamos nos encantar, nos decepcionar, vamos passar pela dor e pelo contentamento, vamos ganhar e vamos perder.
Vamos calar, engasgados com aquele nó apertado na garganta e uma enorme vontade de desabar num longo choro doído, gostoso, copioso e abundante.
É o choro libertador.

Choraremos na chegada e na partida, no nascimento e na morte. No início e no final. Choraremos.

Mantenha-se calmo. Chorar faz bem, dissipa as nuvens dos nossos dias recobertos pela melancolia das aflições e libera nossos sentimentos mais intensos e tocantes.
Chorar é nobre. Chorar é para meninos e meninas.
Chorar é mostrar coragem de se desnudar psicológica e emocionalmente, seja pelo amor ou pelo raiva, seja pela vitória ou pelo fracasso.
Chorar não dói. Choramos porque doeu. Da mesma forma que chorar não traz felicidade, choramos por estarmos em estado de graça, felizes, radiantes e iluminados.

Vamos chorar nossos companheiros, filhos, pais e amigos. Na maioria da vezes serão lágrimas de felicidade e compartilhamento de prazeres, sucesso e alegrias. Entretanto, existirão situações que nos farão chorar o choro do pesar, a lágrima do sofrimento e da dor.

Choraremos.
Choraremos sozinhos, juntos, perante outros, mudos ou aos gritos. Choraremos muito ou pouco. Choraremos entre gargalhadas sonoras ou murmurando palavras tímidas que só nós compreendemos.
Melhor começar a aprender a não prender o choro, melhor entender que a lágrima da alegria não carrega em si a ruga do amanhã, melhor chorar com alguém do que por alguém.

Meu copo d'água, por favor!





segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Borboletas



Passada, perplexa, perpendicular e particularmente,
Incerta, indecisa, incapaz, indefesa; porém, intensa,
Caminhos cortados, casais cansados,
Desunidos, desligados e dissolvidos,

Sonhos sonhados e sonhos sonegados,
Realidade reta, roída e rude,
Vida viva!
Virando a esquina vê-se o eficaz,

O prazer de ser e estar ao lado de seu âmago,
Cada vez mais acirrado, penetrante e ativo,
Reaprender não é para os covardes,
Renascer é para os de tenacidade,

Contumaz e frenética, segue em buscas,
Decidida, resolvida e pronta para o sucesso,
Que vem vindo ameno, gracioso e homeopático,
Borboletas, flores, aromas, amoras e amores,

Tudo vem doce, terno, meigo e levemente inebriado,
Com o mel da vida nova, desabrochada e desconhecida,
Mas tudo vem, no seu tempo e espaço,
Desatar os nós, extinguir o fogo e transformar em pó,

O não-acontecido, o abortado, o não-nascido,
A hora é de sim, muitos e muitos "sins",
Sim para o novo, inesperado, imprevisto e cativante,
Sim para o arrebatador e para o mensageiro da Primavera.




Ajuste










O bem-estar vai aprochegando-se,
Manso, vagaroso, sereno; porém tardio,
A missão é aguardar sem pressa,
Desgustar cada momento da espera,
Com meu binóculo invisível contemplo a chegada,

Dias contados na ampulheta de areia colorida,
Uma espera colossal dentro de um viver abissal,
Felicidades e alegrias do existir em dois,
Saudades do viver em três,

Embebida pelos trejeitos dele,
Meu bem querer vai me mimando,
Me ninando nas noites de insônia,
Me amando nos dias de paixão,

Jogados e cansados relembramos,
O passado e antevemos o porvir,
E ela sempre conosco,
Figura marcante e sempre importante,

Presentes, lembranças, cacarecos,
Tudo vai se acomodando na grande arca,
Mas a demora faz a vida ficar mais viscosa, compassada e pegajosa,
Feito o fio que tece renda,

Minha roca de fiar cada vez mais afiada,
Furo dedo, sai o sangue,
Não dói, só incomoda, debilita
A decadência da espera, às vezes, me faz definhar,

O dia de debandar está por vir,
Dia de luz e cor,
Dia de sombra e dor,
Divida, separa, junta ou reunida,

Tudo é ambíguo, desordenado e imperfeito,
A roda vagueia, o pião gira e a confusão se instaura,
Na mente, na carne e padecemos juntos,
Desequilibrados, desnorteados e desatinados.


















segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Versando




Cansei de ter como provável o impossível,
Esfalfei-me por cravar as unhas, que não tenho, nas oportunidades,
Reparo que os acontecimentos são lentos demais para minhas retinas,
O realizar-se afigura-se inverossímil,
As ocasiões retardam-se,
O célebre e notável avizinham-se,
Atada e estagnada perco minha mobilidade,

Partir para o combate e confronto não me trariam conforto,
Aconchego-me no ninho do covil,
Mostro-me submissa, mas usando a simulada máscara,
Intrépida, misturo meu líquido volátil ao da cidade,

Consiredações não são mais deferências necessárias,
O existir toma forma de crueldade e insensibilidade,
O ridículo é adequado, justo e conveniente,
O poder é podre, deteriorado e está em decomposiçào,
O adversário é o amigo mais próximo,

Verso, verto, converto credos, crenças e convicções,
Cato meus cacos e acato o caos,
Estilhaços espalhados e destroçados,
Sina, sinal e sinos soam singelos,

Um cheiro de céu estrelado invade minhas narinas,
Perfume de lembranças exala do difusor,
A lama da língua empurra sons que não ecoam decorosamente,
Os dentes se expõem; porém, ocultados pelos lábios,

O martelo martiriza a já maníaca madeira,
Mostro amostras de cansaço,
Ministro
a sinistra cadeira,
Feita e forjada de agonias fingidas.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Comigo









Em processo,
metamorfoseando, em transição, em transformação, oprimida pelas mudanças, me modificando, me alterando, agarrada ao jeans com tênis, me confundo. Meu encontro comigo vai acontecendo, lento, sútil, consiso, indizível e encantador.

Minhas mãos gelam, minha cabeça roda, meu corpo treme. Confrontar-me com ela é, escandalosamente, atemorizante. Quem é essa mulher que me assunta, me apavora, me amedronta com suas novas e inusitadas manias. Com suas vontades e demandas que se confrontam com as minhas? Quem é ela que me aparece de quando em quando, me levando para dimensões e chãos jamais pisados por meus pés quentes e afogados no lodo do passado? Capaz de elevar minha auto-estima, ela vai me sofisticando, provocando minha elegância e vaidade.

Ociosamente e preguiçosamente, vou me deixando levar por ela. Cada dia uma lição nova. Ela é muito mais inteligente e bonita do que eu, sabe o quer e, definitivamente, tem uma auto-confiança de dar inveja. Tenho ciúmes dela, cobiço seu poder e lugar.
A intimidade dela com ela mesma é nojenta e me provoca repulsa. Porém, ela vai se apoderando do meu corpo, de mim por inteira, e eu não sou mais eu.

Debilitada e sem forças para lutar contra ela vou permitindo, orgulhosamente, uma mulher renovada tomar consistência da minha parte visível aos olhos da humanidade. Nervosamente e atenta aprecio cada detalhe das mudanças e restaurações que ela tem feito em mim. Ancora no meu porto uma pessoa linda, vaidosa e exigente, que desenvolveu sua maneira própria e peculiar de ser. Desguarnecida, desarmada e com alguma petulância autorizo o desembarque.

A mandala da vida passa por mim lentamente e vai refletindo essa pessoa que eu sempre quis ser. Embora saindo, completamente, da minha zona de conforto e segurança, vou arriscando um brilho aqui um salto mais alto ali. Uma novo rímel, uma nova base, uma sombra arrojada. Vou me imputando obrigações de carinho e beleza de mim para mim mesma.
Vou aprendendo pequenos truques de moda e beleza e me apegando à certas coisinhas desnecessárias, mas obrigatórias e indispensáveis para esse novo rumo que ela me fez seguir.

Sem perder minha essência, meu conteúdo, meu interior, minha substância concreta, me aventuro seriamente nessa experiência de cuidar-me, amar-me e enfeitar-me. Para ninguém, para mim. Quero a singularidade, a complexidade, a bravura, o ultrapassar.
Quero ser única, complicada, valente, transpor a tangente, morar e re-existir em mim.

Ela, que já me habitava, me fez provar o belo, desafiou possibilidades ocultas e capacidades latentes em mim e esse conjunto de normas inovadoras e petulantes
agradaram-me os cinco sentidos.

Resplandeço e saliento-me. Estou em evidência.




terça-feira, 12 de agosto de 2008

Rolam os dados






Eu tenho consciência de que não posso estar presente em tudo que acontece na vida dela; pois a vida é dela, claro.
Compreendo que de modo algum poderei enumerar sua inúmeras qualidades para os indivíduos que a selecionarão um dia.
Nunca terei licença para apresentá-la aos mestres que elaboraram as temidas questões, para poder contar-lhes que ela foi uma aluna muito devotada.
Não me autorizarão ir para o local de provas com ela, mesmo que eu alegasse que ficaria sentada, bem quietinha, só observando seus movimentos durante os exames.
Nunca me permitirão segurar suas mãozinhas suadas, pelo nervosismo, na horinha exata da prova, apenas para poder acalmá-la e sussurrar no seu ouvido que só por estar alí, ela já é uma vencedora.
Sei também que não terei acesso à banca examinadora para dizer-lhes o quanto ela estudou.
Minha entrada será bloqueada quando a banca estiver reunida corringindo as provas dela, logo jamais conseguirei fazê-los ver quão dedicada e obstinada ela foi durante este ano de "coma".

Infelizmente, eu não posso, limitam-me, proibem-me, restringem-me.
Resta para mim então, encorajá-la a não perder a coragem, a garra, a vontade e o ânimo.
Pedir à ela perseverança, valentia e firmeza de propósitos.
Emanar flúidos de confiança, otimismo e segurança.
Mentalizar, projetar e ver com olhos de anjo seu resultado feliz.
Lembrar-lhe de que ela é capaz, tem valor próprio e o seu sucesso está logo alí, ao alcance de sua mãos.

O que posso, sem pedir permissão, licença, autorização e consentimento é amar-lhe. Independente de qualquer condição, total e ilimitadamente.

Eu sou a sua mãe.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Amaya












Deve ser, realmente, muito curioso e singular, quando você programa uma coisa para a sua vida e, de repente, de uma hora para a outra brota - Amaya.

Dizem que ela revelou-se pela primeira vez numa atmosfera de bastante desenvoltura e estava muito espirituosa.
Foi um choque, espécie de comoção geral, para todos os presentes na "tal cerimônia", pois a personagem foi tomando uma forma bastante descansada, expansiva e sociável.

Amaya tornou-se pessoa essencial na vida dos que estavam ao seu redor.
Tinha um jeito meio insolente de ser; porém, disfarçado em performances descontraídas e relaxadas. Fazia a turma alegre e não se constrangia com coisa alguma.

Um pouco vulgar, pretensiosa e afetada, mas soava feliz. Fazia cenas com casos pequenos, sempre teatral e pitoresca.

Encantava os demais, era lida como indivizível. Entretanto, de quando em quando, alguém precisava chamá-la a realidade, por seus pés no solo, comum a todos os mortais e lembrá-la de que o mundo não rodava em torno do seu umbigo.


Enfurecia-se, rodeava-se de demônios, perdia o controle, melindrava-se, causava pânico, celebrava o terror com gritos e gemidos agudos e afiados.
Era o gênio do mal encarnado na tão deliciosa e inebriante figura.
Acalmá-la era tarefa árdua, pois a criatura detinha-se frustrada e amaldiçoada pelo cosmos por um longo tempo.


Por fim, o espírito das trevas dava lugar a encantadora e sedutora persona.

Voz aveludada, sorrisos tentadores e cativantes reapareciam pelos lábios de Amaya.

Amaya foi uma criatura produzida,
infernalmente, dentro do inconsciente, vinha das entranhas primitivas, com a única finalidade de atormentar os já sem equilíbrio, aqueles que não têm igualdade de forças, os desassossegados e desamparados.

Criada e cravada na cratera da dissimulação e persuasão.
Atolada, atochada e abarrotada de máscaras demoníacas.
Enterrada,
escavada e esquecida na casa e na cadeira vazias.

Cuida-te, equilibra-te, permanece com tuas forças iguais e unidas.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Timeless





Cismada, desconfiada, meditativa, com um idéia fixa e até um pouco desorientada.

Estamos todos crescendo.

Meus olhos desnudam a insensata ocasião com certa surpresa e embaraço.
A percepção do real é um tanto quanto alienada e imprudente, mas bendita.

Não desejo me perder, mas também não me toleraria presa e cativa do tempo.

A coisa já está feita.

Anseios para meu infinito particular são manter-me inabalável comigo mesma; porém, buscar de modo investigativo e incessante, esse novo e intrigante capítulo da vida.

Fabulosamente irreconhecível, sem barreiras ou cercas capazes de me manterem encarcerada ao meu antigo Eu.

Vejo emergir uma versão original e inexperiente de mim.
Uma mistura atraente e simpática de uma séries de mulheres minhas e alheias. Ressurjo, recrio-me abstrata e concretamente a partir de exemplos e modelos que, eventualmente, me seduzem ou fascinam.

Como um quebra-cabeça, vou coordenando cores, aromas, amores e arrumando minhas gavetas.
Sem muito cuidado em seguir a direção correta, mas nunca desapontada com os caminhos escolhidos e impostos. Lá vou eu.

E vou comigo, com você, com ela, com ele, com todos e todas, nem sempre para o ponto certo, mas lá vou eu.
Lá vou eu sem rumo, sem presenças e vexada por chegar.

Lá vou eu. A nova e a antiga. A misturada e a acumulada. A exagerada e a oprimida. A arrogante e a dominadora.

O tempo teima em me levar, mas também o arrasto comigo. Sobrecarregada com seus efeitos em minha epiderme e órgãos.

Então, lá vou eu e lá vamos nós. Lá vai você, lá vai ela, ele e todos que decidiram-se pela vida.



quarta-feira, 16 de julho de 2008

Feminilidade








Rute é uma balzaquiana, mulher bem resolvida, muito articulada e suave.

Hoje,
depois de um extenuante dia no trabalho, está entre amigos mais uma vez. Mas, agora para comemorar a compra do seu dois quartos no Leblon. Enfim saiu. Após uma estressante batalha de negociações com o proprietário.

Está no auge da sua beleza e profissão. Muito trabalho, muita determinação, muita diversão, muitos restaurantes, muitas boates, muitos amigos, muitos bate-papos, muitas viagens, muitos sapatos, bolsas, roupas, perfumes e jóias. Ela não admite, nem tem tempo para as derrotas, mesquinharias e dramas.


Dedicada e cândida no seu ofício, indispensável para a família, amiga das amigas, voraz consumidora, ávida pela moda e beleza, fiel ao estilo de vida que sonhou quando menina. Absolutamente livre e soberana no seu modo de viver. É uma mulher ambiciosa, preserva sua aparência social, nada religiosa e cheia de caprichos.

Não tem bolsas, tem Louis Vuitton; não usa óculos, usa Gucci; não se maquia, aplica Lancôme; não se veste, traja-se "by Nicole Miller". Mima-se, paparica-se, dá-se o direito de adquirir bens, os mais supérfluos possíveis, mas considerados por ela básicos para sobreviver.

A luz incomoda. Café faz parte da sua rotina. Sapatos podem até machucar, mas tirá-los jamais. Necessaire é artigo de primeira necessidade. Acender o fogão dói, ligar a máquina de lavar causa tédio e fazer a cama quando acorda é inoportuno. Sutil e delicada, fútil jamais.

Amantes e amores ela os teve e ainda os tem. Uns arrasadores, arrebatadores e selvagens, outros brandos, atenciosos e meigos. Porém, devido à sua instabilidade, inconstância, indecisão e vulnerabilidade, não tem sido capaz de cuidar, alimentar e sustentar seus relacionamentos.
Ela quer uma pessoa que "caiba nos sonhos dela", um homem irreal, alguém que seja capaz de ser muitos em um só; um companheiro, um cavalheiro, um Don Juan, um go-go boy, um amigo, um pai, um irmão, um músico, um cantor, um dançarino.

Ela sonha em montar o seu próprio homem, como se pudesse pegar um "tiquinho"de cada um de seus amores e ir juntando pedacinho por pedacinho até chegar ao seu par ideal, Seu Príncipe.

Não é possivel ter tudo, não é possível ser tudo, simplesmente não é possível ...

O improvável é fato, o impossível é dado.

Corram, procurem por ela, chamem seu nome bem alto e digam à ela que ainda é possível ser feliz, antes que o tempo, que é impiedoso, corroa a beleza e leveza que ela traz em si!

Apaguem as luzes, abram os portões, deixem-na entrar, tragam as frutas, neguem café e convoquem-na para a felicidade.

E, depois que ela acordar, por favor mandem me chamar.








quinta-feira, 10 de julho de 2008

A Dama








Vez ou outra eu ouvia falar dela.
Eram quase sempre notícias estapafúrdias e desconectadas da realidade. Na minha ignorância, entendia aquela mulher como uma pessoa lúdica e/ou extravagante, aquele tipo de pessoa que quando chega, CHEGA.

Tudo o que chegava aos meus ouvidos vinha de um grupo seleto de pessoas muito jovens
, o que me fazia crer que algo estava um "tiquinho" aumentado ou mesmo fantasiado, fruto da juventude e entusiasmo dos narradores.
Enquanto relatavam as experiências dela, as mais improváveis e inadmissíveis para qualquer ser humano normal, eu via brilho, assombro, espanto e até uma pontinha de admiração em seus olhares.

É chegado o dia de conhecê-la !

Muito estranha a criatura. Em alguns minutos enumerou mais de vinte ou trinta casos tristes de sua vida, lastimou-se do ex-marido, relatou segredos familiares, esvaziou, sem dó nem piedade, seu movimento existencial em cima de mim. Porém, ao mesmo tempo que parecia sacrificada e imolada, vangloriou-se de feitos que, para meus sentidos auditivos e sensitivos, soavam como aberrações, tolices ou eventos contrários a razão.

Surpreendi-me!

Com o passar de nossa ligação, foi ficando muito claro, para mim, a doença da coitada. Uma doença que jamais teria cura, uma doença que abateu toda a família . Uma doença que ela ia transmitindo, em doses homeopáticas, ao marido, ex-marido, amigos, amantes, filhos e todos mais que, porventura, cruzassem seu caminho.

A doença do vazio interno e interior. A doença da própria pena, da chantagem emocional, que, inevitavelmente, tem como foco secundário a solidão solitária, só e sozinha! Essa pobre mulher habita-se num deserto descampado e despovoado.

Penalizei-me!

A senhora deste conto escolheu viver numa terra utópica, criada por ela mesma com, é claro, brutais e segundas intenções
de confundir, sem muito esforço, a individualidade privada de todos os membros de sua quimérica confraria.
É uma personagem em sua própria vida, é uma caricatura de um saltimbanco, é uma dama burlesca.


Vaga só e única, com seu ponto central - seu umbigo,resultado do corte do cordão umbilical.
Resiste e sobrevive afastada da convivência social real, sem nunca ter compreendido o poético e o intuitivo.

Pobre atriz, sustenta a maquiagem, os cabelos e as roupas que a compõem.
Porém. pouco produtiva, estéril de sentimentos, nenhum filho, nem o livro, nem a árvore.










segunda-feira, 7 de julho de 2008

MULHER













É, realmente, ela não tem cura!

É assim mesmo, emoção do corpo, da alma e do espírito. Uma totalidade de sentimentos, uns lógicos e outros nem tanto. Mas sempre sentimentos, na maioria dos seu íntimos momentos, bons e brandos.

Não acredita nos quadrados, sempre nos círculos, ciclos, alterações, sucessões, períodos repetitivos de vidas presentes, passadas e futuras.
Ela é pura intuição, energia. Ela é totalidade de VIDA, ida, Davi, vai, diva, via, dia e tantas quantas outras
palavras for possível se formar com as letras de VIDA.

Ela o vivo, o vermelho, o sol, o fogo, a ação, o movimento, a roda, o diurno e o solar.
Nada passa desapercebido pelos olhos, atentos, desta mulher.
Guerreira e medrosa, exemplo; porém, cheia de erros, harmonica e irregular, estruturada e ainda em processo. Símbólica e metafórica, ela entende o giro da renovação e do triângulo.

E ela renasce, renova-se, ressurge, ressuscita, revela-se, recomeça e se repete a cada dia quando o sol brota lá no oriente de sua essência animal.

Acomodada, resignada e adaptada à sua ressurreição diária,
equilibra seus potenciais sem receios de censuras... Hospeda-se em si mesma, vai de encontro ao silêncio e à serenidade e, então assossega-se. Encontra-se em estado de estar só e plena. Sente a volúpia e o divertimento do antagonismo e da rivalidade de sensações em seu Self.

Ela é o agente psicótico de cada um de nós, de peito aberto ela se expõe, se abre para o outro, se dá sem medos e, ainda assim, ousa querer ser única e ímpar. Alcança proposta do seu âmago inicial de patida.

É capaz de ser impulsiva e comedida ao mesmo tempo. Porém, pede licença para seu ser primeiro para olhar, sentir, cheirar e tocar todo e qualquer estímulo
fragmentado vindo do mundo exterior. Só depois de minucioso exame ela projeta o inteiro. E apodera-se do caos e o reorganiza. Pelo simples prazer de ir de encontro do desestruturado.
Nem poderosa nem pequenina. Apenas o mito MULHER.


Ela é da cor da alma, da libido e do coração. Ela é a sua imagem de mutação, imagem dos que querem a liberdade de amar e o prazer de serem SERES.
Ela constrói e demoli conceitos e (pré) conceitos todos os dias.

Por fim, ela se mostra como a dinâmica das relações de todos nós com o grande universo que nos sustenta vivos e unidos, apesar das distâncias físicas, quânticas e matemáticas.








quarta-feira, 11 de junho de 2008

Morangos




Determinou-se um cineminha cult depois do trabalho.
Filme escolhido -
Wild Strawberries de Bergman.
Sentou-se na sala de projeção, quase vazia, num cantinho frio e bem abandonada.
Belinha queria assistir alguma coisa densa, que lhe fizesse pensar, analisar, refletir, ponderar.

Sucesso absoluto!

Saiu do cinema
quase meia noite numa deprê absurda. Viu-se no sonho do velho solitário, reconheceu-se na falta de ponteiros dos relógios, enxergou com assombro seu rosto de morte visto por ela mesma, com o mesmo terror do ancião protagonista do filme.

O trajeto para casa foi um "pensar" só. O filme lhe trouxe um tornado repleto de pensamentos duvidosos à respeito de sua existência.

Estaria ela vivendo de acordo com suas projeções juvenis? Nutria-se de elementos valiosos para não deixar-se apodrecer na solitude amarga e dura vivida pelo ator do filme? Belinha teria forças para enfrentar a deteriorização e o enfraquecimento de sua matéria? Teria ela construído bases sólidas para agüentar todo e qualquer intempério da sua própria natureza mãe?

Ao entrar em sua toca aconchegante, percebeu-se só, num universo que ela, mesma, havia construído apenas para si, viu-se mutilada de companhia, profundamente enraizada numa solidão silenciosa, quase morta.
Mas ela absorta em reflexões, sabia a razão primeira para todo esse acabar existencial e abafado.

Vivera até agora à procura do que não há por si só nem tempo todo. Percebera que seus atos, mesmo os mais insignificantes, tiveram efeitos recíprocos nos elementos que a cercaram e, com isso cada elemento seu ou alheio fora modificado também. E nem sempre essas modificações lhe trouxeram alegrias.

Por fim, deitou-se e entendeu-se uma tola que, passara a vida vasculhando em outrem ou no "em-torno" a felidicade, que só caberia e estaria dentro dela. Tolerou-se.
Entretanto, sentenciou-se
, consciente, a transpor suas paredes sólidas e em sono profundo caminhou ao encontro de seu inconsciente.

Sem resistências, buscou viver sua totalidade sem sombras e monstros externos. Buscou dentro de si sua imagem virtual, comprometeu-se a não culpar ninguém pelo que fosse visto, estaria ultrapassando seus dados "irreais" e fazendo, pela primeira vez, contato com arquivos pessoais, realmente, reais.

A manhã chegou e Belinha era outra.

Viu-se bela apesar de nenhuma maquiagem, viu-se fluindo intuitivamente, amou-se sem precisar de aparatos externos, quis-se por inteira sem ter que ter alguém que a quisesse. Ela era ela e ponto final.

E em suas deduções empíricas, percebeu-se livre, intimamente ligada ao seu ser, empenhada em destruir qualquer matéria que pudesse lhe causar dano. E interessou-se em arquitetar, juntar peças e renovar
toda substância e elemento sustentáveis que lhe fosse agregar algo de bom para sua existência.

Belinha chegou ao escritório sorridente e bastante disposta ao trabalho.
Seguiu para sua sala em passos de contentamento.


Sentou-se e, desta vez, entendeu-se traduzida.


sexta-feira, 7 de março de 2008

Alforria





Acordei. Fui acordada com um beijo lindo e suave de bom dia. Acordei feliz da minha vida e como se tivesse dormido horas a fio, com uma disposição assustadora. Tive vontade de andar, correr, ver e falar. Uma vontade que veio do nada, do tudo e com uma leveza do corpo e alma que chegou a me amedrontar.

Tive, por alguns instantes, vergonha de estar tão alegre, medo desse instante acabar, achei que poderia ser um desses encantamentos que nós só lemos em contos de fadas. Respirei . Preferi largar de mão as bobagens do meu pensamento tolo e receoso e abraçar o sentimento bom que me invadia. Era uma sensação tão boa, que tive a impressão de estar vazando, transbordando, parecia que tinha qualquer coisa saindo de cada porinho meu.

Estava, comprometidamente e compulsoriamente, ligeiramente embriagada por estar feliz. Parei. Porém, não me permiti raciocinar, apenas atrevi-me a experimentar e saborear a impressão e sensibilidade do que estava sentindo. Futuquei, investiguei e conclui com meu coração que, puramente, estava meramente feliz. Ainda meio tímida, vasculhei meu peito e não encontrei angústias, ansiedades, aflições nem agonias. Eu era só um corpo abarrotado de felicidade e paz.

Tomei um chá, chá de alecrim para me manter calma, serena e me aceitar por inteira naquele momento de harmonia com o cósmos. Sim, era assim que eu me sentia, em completa sintonia com o mundo e todos os seus seres, visíveis ou não.
Ao encarar de frente minha nova condição de estar feliz, vi no espelho do meu banheiro outra pessoa, essa pessoa sorriu! Sorriu para mim. Era eu que estava sorrindo para a vida.

Permaneci alguns instantes observando aquela mulher de meia idade. Reparei cada detalhe do rosto dela. Como ela era bonita, carregava no rosto algumas marcas da vida, mesmo assim era bonita. Tinha uma beleza doce, sossegada e amável. E ela era eu impregnada da plenitude da vida e do amor. Nua e despida de todos os pensamentos e teorias preconceituosos que me mortificaram e torturaram nesses dois últimos anos.

E, lentamente, como se fosse uma magia ou um feitiço fui admitindo minha capacidade de estar feliz. Fui, vagarosamente, enxergando sem conflitos que o bem-estar e o contentamento existem em qualquer lugar do mundo. Reconheci que posso viver suavemente em quietude mesmo num lugar atormentado e inóspito, porque, de repente, me dei conta de que não estou só feliz. Sou feliz.
Não hesitei em entregar-me à felicidade. A mesma felicidade que me tomou por inteira hoje ao acordar, já existia dentro de mim. Era eu quem, conscientemente, abafava, sufocava e acorrentava esse sentimento, talvez, por pudores ou acanhamentos.

A partir de hoje, entro num novo estágio de percepções, eu me alforrio, eu me liberto, deixo que liberdade tome conta de mim, eu ouso e me autorizo a sentir toda e qualquer emoção, irresponsavelmente e ofensivamente, sem culpas e também sem me preocupar se o que sinto ou o que sentirei vai causar danos ou escandalizar os demais.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Segredos...


Para mim, guardar segredos sempre foi uma coisa bem simples.

Quando criança gostava de saber das coisas do mundo adulto e fazia tudo que estava ao meu limitado alcance para estar por perto dos maduros. Queria ficar "por dentro" dos assuntos e acontecimentos daquele mundo tão grande e complicado. Estava sempre antenada, ligada e, mesmo, quando "eles" falavam por códigos eu entendia e experimentava com excitação e convencimento o prazer do saber das coisas.

Ficava tudo só para mim, porque não tinha para quem contar - sou filha única. Sanar qualquer dúvida,
que por acaso aparecesse, seria muito arriscado, logo desconfiariam que eu havia estado por perto e ouvido demais. Enfim gostava por gostar, por poder saborear as novidades acontecidas no universo adulto.

Houve também uma ocasião, já na fase adulta, em que me senti "meio" estimulada a ocultar um segredo. Foi um acontecimento bastante relevante e de muita gravidade, tanta seriedade que escondi na minha cabeça, tão bem escondidinhio, que já nem me lembro bem como tudo aconteceu, nem quantos anos eu tinha. Só vem à minha cabeça os sonos que perdi sem poder compartilhar, dividir e repartir com alguém.

Então é assim, desenvolvi a técnica do escutar, ouvir e arquivar. Vou armazenando tudo, tudinho mesmo no hard disk da minha vida. Não é que eu seja boazinha ou que não queira estar na roda da fofoca, nem guarde por ter me sido confiado.
A verdade é que simplesmente não aprendi nem cultivei ou desenvolvi o hábito contar o que ouço.

Vez ou outra, entra um vírus maléfico no PC da minha vida, tipo umas pessoas que têm por, mau hábito e natureza, só falar do outro e sempre mal ou aquele outro tipo que joga um verde para colher um maduro. Pois é, sou obrigada a deletá-las por algum tempo para não ser infectada pelo vírus, hora de desligar meu computador de vida, esvaziar o HD de coleta de escutas para mais tarde startar a relação de novo.

Me recolho, me encolho, entro no casulo, hiberno e escapo ilesa. Um tempo depois, que pode durar minutos, horas, dias, semanas, meses ou até mesmo anos, me recarrego, re-starto meu windows privado e pessoal e me conecto com o mundo real outra vez.

Reparo em tudo e em todos, presto atenção, principalmente, nas palavras; porém, o corpo do outro também se torna inteligível aos meus olhos e às minhas sensações. Às vezes, sinto como que eu se tivesse um terceiro olho, um olho que sente e não vê.
Vejo além do que estão me dizendo, leio as entrelinhas das mãos, bocas e trejeitos. Por isso não me sinto muito à vontade em dicutir certos assunto com qualquer pessoa. Alguns seres humanos têm a tendência de se fixarem demais no que vêem. Aparências.

Exaspero-me.

Outras criaturas tem uma inclinação a insistir, refrisar e repetir "fulano disse".
Assumem, por suas próprias contas, que entenderam, compreenderam e daí por diante lançam mão do dom da palavra para contar, recontar, comentar e até interpretar o que ouviram
Ah! Como isso me inferniza, me faz mal, me envenena, fico absolutamente intoxicada.

Sou assim, complicada nas relações. Fingir, jamais; porém, calar sempre. Lema de vida?!
NÃO!! Preceito individual, fruto da solidão.