segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Ancorando



Ela parecia ter conhecimento dos fatos que lhe iriam acontecer. Meio bruxa, meio fada, sabia que teria que ter forças para lidar com aquele mundo novo. Ainda que meditativa, relutante e desorientada ela embarcou naquele navio. O balanço do mar revolto fez com que ela ficasse enjoada e, inevitavelmente, ela vomitou. Vomitou o vômito mais amargo de sua vida, uma coisa sem cor vinda de suas entranhas mais profundas. Ninguém viu. Ela calou-se.

Destemida enfrentou furacões, amedrontada encarou a deriva da embarcação e fez daquela travessia, consistente e áspera, sua fonte de energia. Buscou, sem mediocridade, encontrar graça na viagem. Acredita que teve êxito, pois passou por certos e momentâneos instantes de prazer.
Machucou e foi machucada pelas tábuas do deque atingido, soltou gritos mudos para se fazer enxergar. Nada viu. Ela cegou-se na solidão.

Reparou em cada pedaço de gente encostada ao convés, aquela gente parecia encantada com uma flauta que nunca tocara. Era um pessoal adormecido e robotizado pelo comandante daquela construção destinada a navegar em mares irados, lastimosos e severos. Ela manteve-se atenta aos vasos, já sem flores e confirmou-se só, pode contemplar, sem pressa, uns cubículos onde toda a gente dormia e chamava, maravilhada, de cabine.
Viu, com melancolia e uma incapacidade heróica de ater-se ao que era visto, o passadiço e o calado do navio. Ela agitou-se.

Porém, deliciou-se e perdeu-se em seus pensamentos quando pousou seus olhos na âncora vermelha. Naquele instrumento náutico, metálico e em forma de cruz, estaria a solução para o final da travessia, era uma questão de tempo. A âncora fixaria, temporariamente, a embarcação em fundos rochosos, lodosos ou arenosos. Ela nadadia incessantemente até sua primeira praia.
O vento soprou forte e contrário e as almas escolhidas ainda não estavam prontas para o porto.
Ela cambaleou.

Porto escolhido, porto expremido, porto escavado, porto feito por outras almas.
A euforia tomou conta da moça de forma rápida, intensa e retilínea. Não haviam mais dúvidas sobre o aportar. O navio iria atracar a qualquer momento.
E ela não mais contaria as horas na sua antiga apulheta de areia colorida, não mais choraria a saudade da princesa, não mais reinaria absoluta no coração e no corpo do rei. Ela estava recoberta por encantos, fascinações e explosões de exaltação. Ela estava em estado de graça!
Teria que dividir e ser divida, mas estava inteira, completa, perfeita. Aos gritos de sorte, prazer e satisfação, ela chorou. O choro mais doce de sua vida. Choro de contentamento. Ela riu-se, gargalhou-se, emocionou-se, sentiu o mundo rodar e rodou com ele.
A carta, enfim, seria assinada!

Carta assinada, destinos selados, âncora ao mar!
Ela iria se vestir com todas as
cores do mundo e, lentamente, saborearia a descida da rampa da embarcação grande e prestigiosa, avistaria de longe a princesa e todo o seu reino de volta. A vida teria sentido outra vez. Entretanto, um tanto infeliz e atordoada, lembrou que os encantados e adormecidos permaneceriam em repouso total. Somente as almas cristalinas e serenas poderiam ver e sentir junto com ela. Ela é certeza.

Certeza de aportar, certeza de estar viva, certeza de amar, certeza de ser amada.
Avante, meu comandante!


2 comentários:

Luciana Andrade disse...

Mais do que gostar de portos acredito que eles sejam necessários. Quase sempre indicam tempos de calmaria...
Belo texto!

Clarinha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.