terça-feira, 9 de setembro de 2008

Malas







Concordo, aposto, aceito os conceitos,
Releio "pré-conceitos", crio acessórios,
Rimo os ritmos, brinco com as palavras,
Não me enquadro às regras preconcebidas,

Frustações existiram, decepções dispersaram-se,
Sentimentos trabalhados e tarja preta ingerida,
Rejeições e repulsas foram inevitáveis,
Somos todos seres humanos em construção,

Digeri o remédio, assimilei os efeitos e esbanjei bem-estar,
Reconheci o estrangeiro, o estranho e neutro,
Exorcizei meus demônios, os gênios do mal e os espíritos malignos,
Optei pelas fadas, anjos, santos, duendes e purezas,

Seduções, cheiros, inconstâncias, fantasias e caprichos atendidos,
Enganos, danças, encantos, desencontros e o meu desencanar,
O ouvir, o escutar, o dizer, o falar, o andar e o caminhar,
Tudo parte desses seis sentidos que me fazem amar,

Não há mais tempo para o pensar só e o examinar,
A introspecção fica aguardando na velha caixa de retalhos,
Espera, passiva, sem fúria, sem medos e sem agonias,
O deleite da colcha, o regalo da concha e a delícia do côncavo,

Urge e surge a mala ríspida, rígida, austera e severa,
Preenchida de aplausos, abraços, acolhimentos e algumas alucinações,
O estrondo do retorno sussura leve e suavemente pelo contorno do cosmos,
A tríade, a trindade e o trinômio seguem,
Cantarolando, unidos, um mesmo refrão,


segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Ancorando



Ela parecia ter conhecimento dos fatos que lhe iriam acontecer. Meio bruxa, meio fada, sabia que teria que ter forças para lidar com aquele mundo novo. Ainda que meditativa, relutante e desorientada ela embarcou naquele navio. O balanço do mar revolto fez com que ela ficasse enjoada e, inevitavelmente, ela vomitou. Vomitou o vômito mais amargo de sua vida, uma coisa sem cor vinda de suas entranhas mais profundas. Ninguém viu. Ela calou-se.

Destemida enfrentou furacões, amedrontada encarou a deriva da embarcação e fez daquela travessia, consistente e áspera, sua fonte de energia. Buscou, sem mediocridade, encontrar graça na viagem. Acredita que teve êxito, pois passou por certos e momentâneos instantes de prazer.
Machucou e foi machucada pelas tábuas do deque atingido, soltou gritos mudos para se fazer enxergar. Nada viu. Ela cegou-se na solidão.

Reparou em cada pedaço de gente encostada ao convés, aquela gente parecia encantada com uma flauta que nunca tocara. Era um pessoal adormecido e robotizado pelo comandante daquela construção destinada a navegar em mares irados, lastimosos e severos. Ela manteve-se atenta aos vasos, já sem flores e confirmou-se só, pode contemplar, sem pressa, uns cubículos onde toda a gente dormia e chamava, maravilhada, de cabine.
Viu, com melancolia e uma incapacidade heróica de ater-se ao que era visto, o passadiço e o calado do navio. Ela agitou-se.

Porém, deliciou-se e perdeu-se em seus pensamentos quando pousou seus olhos na âncora vermelha. Naquele instrumento náutico, metálico e em forma de cruz, estaria a solução para o final da travessia, era uma questão de tempo. A âncora fixaria, temporariamente, a embarcação em fundos rochosos, lodosos ou arenosos. Ela nadadia incessantemente até sua primeira praia.
O vento soprou forte e contrário e as almas escolhidas ainda não estavam prontas para o porto.
Ela cambaleou.

Porto escolhido, porto expremido, porto escavado, porto feito por outras almas.
A euforia tomou conta da moça de forma rápida, intensa e retilínea. Não haviam mais dúvidas sobre o aportar. O navio iria atracar a qualquer momento.
E ela não mais contaria as horas na sua antiga apulheta de areia colorida, não mais choraria a saudade da princesa, não mais reinaria absoluta no coração e no corpo do rei. Ela estava recoberta por encantos, fascinações e explosões de exaltação. Ela estava em estado de graça!
Teria que dividir e ser divida, mas estava inteira, completa, perfeita. Aos gritos de sorte, prazer e satisfação, ela chorou. O choro mais doce de sua vida. Choro de contentamento. Ela riu-se, gargalhou-se, emocionou-se, sentiu o mundo rodar e rodou com ele.
A carta, enfim, seria assinada!

Carta assinada, destinos selados, âncora ao mar!
Ela iria se vestir com todas as
cores do mundo e, lentamente, saborearia a descida da rampa da embarcação grande e prestigiosa, avistaria de longe a princesa e todo o seu reino de volta. A vida teria sentido outra vez. Entretanto, um tanto infeliz e atordoada, lembrou que os encantados e adormecidos permaneceriam em repouso total. Somente as almas cristalinas e serenas poderiam ver e sentir junto com ela. Ela é certeza.

Certeza de aportar, certeza de estar viva, certeza de amar, certeza de ser amada.
Avante, meu comandante!


terça-feira, 2 de setembro de 2008

Chegada












Não me entrego fácil assim, vou inventando diversão,
Tirando do bizarro um sarro, condicionando meu coração,
Lembrando para não ser esquecida,
Andando, às vezes, sem rumo; porém sempre seguida,

Espiando aqui e alí, inspirando o ar denso,
Expirando, sem pressa, o fluido tenso,
Mastigando o presente vivo,
Ruminando o passado já lido,

Não me entrego fácil assim, reinventando a graça,
Desistir jamais, concentrar, que com certeza, passa,
Transpassando e enganando o mundo,
Procurando encontar a luz do meu fundo,

Razoável, entendível; porém, tecnicamente,
Misterioso, enigmático e independente,
E com uma grande dose de realidade,
Revisando e resgatando a objetividade,

Vou chegar bem de mansinho,
Na surdina, com o céu muito estrelado,
Assustar, mas com carinho,
E abraçar muito apertado!









sábado, 30 de agosto de 2008

Ode


Esta página é integralmente dedicada à mágica da amizade.

Uma verdadeira, leal e sincera amizade que começou com uma tímida e simples tortinha de bluberries sem açúcar - minha nova amiga não deve exagerar nessa substância extraída da cana de açúcar. Respeitei.

Provavelmente ela nunca venha a ler a página feita por ela e para ela. Não me sinto ofendida, desdenhadada nem desprezada. Entendo.
Entretanto não consigo calar, pois quando meu coração e cabeça se desassossegam, as palavras e sentimentos se alvoroçam dentro de mim, é escrevendo que encontro minha quietude interior e inteira.

Nossos universos são absolutamentes distintos, somos quase água e vinho. E é isso que faz a beleza e leveza da nossa amizade e minha admiração por ela é enorme. Nos aceitamos e nos gostamos do jeitinho que somos uma para a outra. Não disfarçamos. Aprecio

Sorriso aberto, pensamentos livres, criatividade à flor da pele, sensibilidade saindo pelos poros, atitudes doces, conduta correta, muitos filmes e muita leitura- Essa é ela, minha amiga.
Em cada encontro o prazer da troca, o prazer de vê-la, de tê-la por perto, o conforto nas horas doídas e as broncas quando eu saio do salto. Tudo é sempre muito bem-vindo. Tudo muito querido, quero um bem enorme à essa criaturinha delicada e amável.

Magia construtiva e agregadora de uma amizade embebida em conversas infindáveis, cursinho básico feito juntas, fofoquinhas inocentes, novidades vindas do Rio e de São Paulo, algumas compras, cumplicidade de pequenos segredos, boas discussões, divergências de opiniões e filosofias. Porém, tudo nos mantém unidas e reunidas nessa nossa chuva de verão.


Sabemos no fundo de nossos corações que nada é para sempre, nada é eterno, amanhã não será como está sendo hoje, pois essa chuva tem dia e hora para estiar.
Não projetamos nossos futuros nos incluindo uma na vida da outra; porém, de vez enquando combinamos algumas poucas visitas que nos faremos.
Não nos iludimos, não nos enganamos, não fazemos juramentos de amizade eterna.
Apenas fecharemos nossos guarda-chuvas. Somos humanas, hoje somos amigas e pronto.

Quando o sol voltar a reinar imperioso e impiedoso no céu da pátria amada, cada uma vai seguir o que já havia planejado para seu curso de vida, rever os antigos amigos, (re)examinar projetos passados e fazer novos planos para os próximos anos.
Cada uma vai levar em si um "tiquinho" da outra e jamais seremos como éramos antes de nos conhecermos. Trocamos, dividimos e aprendemos.

Eu, de minha parte, leverei comigo memórias, fotos, lembranças, saudades, ternura, simplicidade e a meiguice da nossa amizade.
Partirei carregando no container da vida, um pedaço da minha história que contarei a meus netos.
E nesse capítulo da chuva de verão constará com muito carinho, zelo e chamego você, minha amiga.
Direi-lhes quão bom foi conviver com você e, em detalhes, tentarei desenhar sua figura singela; porém, valente e guerreira, aos olhinhos deles.
Mas se depois dos nossos guarda-chuvas fechados ainda for possível nos vermos, levarei as crianças para aprenderem a tomar chá na sua sala de estar.

Levo a tortinha, desta vez você escolhe a fruta, que pode ser; goiaba, açaí, abacaxi, umbu, banana, sapoti, cajá, caju, graviola ou jambo, qualquer fruta, desde que, radicalmente, tropical!

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Taças




Meu
rio está cinza chumbo, meu céu azul, minhas nuvens brancas,
Meu café preto, meu cabelo castanho, minhas flores liláses,
Meu sangue vermelho, minha pele amarela, minhas uvas roxas,
A cidade coberta e recoberta de verde e amarelo,
Minhas unhas francezinhas,

Cores se misturam, estações mudam, lugares se substituem, pessoas se transferem, se deslocam,
As caixas não são sufucientes e minhas coisas se reproduzem,
Entre idas e vindas do tal "refuse closet", vou me desfazendo de tudo o quanto posso,
Jogo fora o novo, jogo fora o velho, jogo o que não consigo levar comigo.

Levo pouco, não preciso de muito,

As buzinas ecoam, as sirenes berram, o povo corre apressado.
O equilíbrio, vez ou outra, falta, forças iguais e contrárias, tudo na proporção devida,
Uma indefinição grave e heróica, a certeza magnífica com dimensões reduzidas,
O telefone toca, mais uma cilada, mais uma charada não decifrada,
A porta se abre, o vinho não chega,

As taças, já empacotadas, tranquilas aguardam por serem usadas,
A alforria se retarda, os negros permanecem com seus gritos entalados,
As gargantas sufocadas, abafadas e reprimidas,
Dependem do fio da navalha afiada,
Para, enfim, gritarem: "LIBERDADE"

A princesa tarda em assinar tal carta,
Não há pressa, o quartel encontra-se em prontidão,
Será com desembaraço e agilidade que os soldados pegarão suas armas,
Não são armas de fogo nem de matar,
São as armas da brandura e da bravura,

Nada religioso, tudo misterioso,
A fé é acionada com constância e veêmencia,
Fechando a composição física, energética e espiritual,
Nenhuma mossa, nenhum trincamento, nada fragmentado,
A linha cósmica prossegue intacta,

Modificando corpos, matérias, canalizando ações e revitalizações,
Mantendo o bom e estimulando o excelente,
As cores vão se transformando,
Os barulhos externos cessando,
E sobram esperanças, probabilidades, expectativas.

Vivo, vives, vive, vivemos, viveis e vivem


quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Copo d'água




Hidrate-se. Porque não há como evitar. Lágrimas sempre vão rolar.
Vamos nos emocionar, vamos nos encantar, nos decepcionar, vamos passar pela dor e pelo contentamento, vamos ganhar e vamos perder.
Vamos calar, engasgados com aquele nó apertado na garganta e uma enorme vontade de desabar num longo choro doído, gostoso, copioso e abundante.
É o choro libertador.

Choraremos na chegada e na partida, no nascimento e na morte. No início e no final. Choraremos.

Mantenha-se calmo. Chorar faz bem, dissipa as nuvens dos nossos dias recobertos pela melancolia das aflições e libera nossos sentimentos mais intensos e tocantes.
Chorar é nobre. Chorar é para meninos e meninas.
Chorar é mostrar coragem de se desnudar psicológica e emocionalmente, seja pelo amor ou pelo raiva, seja pela vitória ou pelo fracasso.
Chorar não dói. Choramos porque doeu. Da mesma forma que chorar não traz felicidade, choramos por estarmos em estado de graça, felizes, radiantes e iluminados.

Vamos chorar nossos companheiros, filhos, pais e amigos. Na maioria da vezes serão lágrimas de felicidade e compartilhamento de prazeres, sucesso e alegrias. Entretanto, existirão situações que nos farão chorar o choro do pesar, a lágrima do sofrimento e da dor.

Choraremos.
Choraremos sozinhos, juntos, perante outros, mudos ou aos gritos. Choraremos muito ou pouco. Choraremos entre gargalhadas sonoras ou murmurando palavras tímidas que só nós compreendemos.
Melhor começar a aprender a não prender o choro, melhor entender que a lágrima da alegria não carrega em si a ruga do amanhã, melhor chorar com alguém do que por alguém.

Meu copo d'água, por favor!





segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Borboletas



Passada, perplexa, perpendicular e particularmente,
Incerta, indecisa, incapaz, indefesa; porém, intensa,
Caminhos cortados, casais cansados,
Desunidos, desligados e dissolvidos,

Sonhos sonhados e sonhos sonegados,
Realidade reta, roída e rude,
Vida viva!
Virando a esquina vê-se o eficaz,

O prazer de ser e estar ao lado de seu âmago,
Cada vez mais acirrado, penetrante e ativo,
Reaprender não é para os covardes,
Renascer é para os de tenacidade,

Contumaz e frenética, segue em buscas,
Decidida, resolvida e pronta para o sucesso,
Que vem vindo ameno, gracioso e homeopático,
Borboletas, flores, aromas, amoras e amores,

Tudo vem doce, terno, meigo e levemente inebriado,
Com o mel da vida nova, desabrochada e desconhecida,
Mas tudo vem, no seu tempo e espaço,
Desatar os nós, extinguir o fogo e transformar em pó,

O não-acontecido, o abortado, o não-nascido,
A hora é de sim, muitos e muitos "sins",
Sim para o novo, inesperado, imprevisto e cativante,
Sim para o arrebatador e para o mensageiro da Primavera.