
Eu tenho consciência de que não posso estar presente em tudo que acontece na vida dela; pois a vida é dela, claro.
Compreendo que de modo algum poderei enumerar sua inúmeras qualidades para os indivíduos que a selecionarão um dia.
Nunca terei licença para apresentá-la aos mestres que elaboraram as temidas questões, para poder contar-lhes que ela foi uma aluna muito devotada.
Não me autorizarão ir para o local de provas com ela, mesmo que eu alegasse que ficaria sentada, bem quietinha, só observando seus movimentos durante os exames.
Nunca me permitirão segurar suas mãozinhas suadas, pelo nervosismo, na horinha exata da prova, apenas para poder acalmá-la e sussurrar no seu ouvido que só por estar alí, ela já é uma vencedora.Sei também que não terei acesso à banca examinadora para dizer-lhes o quanto ela estudou.
Minha entrada será bloqueada quando a banca estiver reunida corringindo as provas dela, logo jamais conseguirei fazê-los ver quão dedicada e obstinada ela foi durante este ano de "coma".
Infelizmente, eu não posso, limitam-me, proibem-me, restringem-me.
Resta para mim então, encorajá-la a não perder a coragem, a garra, a vontade e o ânimo.
Pedir à ela perseverança, valentia e firmeza de propósitos.
Emanar flúidos de confiança, otimismo e segurança.
Mentalizar, projetar e ver com olhos de anjo seu resultado feliz.
Lembrar-lhe de que ela é capaz, tem valor próprio e o seu sucesso está logo alí, ao alcance de sua mãos.
O que posso, sem pedir permissão, licença, autorização e consentimento é amar-lhe. Independente de qualquer condição, total e ilimitadamente.
Eu sou a sua mãe.

Deve ser, realmente, muito curioso e singular, quando você programa uma coisa para a sua vida e, de repente, de uma hora para a outra brota - Amaya.
Dizem que ela revelou-se pela primeira vez numa atmosfera de bastante desenvoltura e estava muito espirituosa.
Foi um choque, espécie de comoção geral, para todos os presentes na "tal cerimônia", pois a personagem foi tomando uma forma bastante descansada, expansiva e sociável.
Amaya tornou-se pessoa essencial na vida dos que estavam ao seu redor.
Tinha um jeito meio insolente de ser; porém, disfarçado em performances descontraídas e relaxadas. Fazia a turma alegre e não se constrangia com coisa alguma.
Um pouco vulgar, pretensiosa e afetada, mas soava feliz. Fazia cenas com casos pequenos, sempre teatral e pitoresca.
Encantava os demais, era lida como indivizível. Entretanto, de quando em quando, alguém precisava chamá-la a realidade, por seus pés no solo, comum a todos os mortais e lembrá-la de que o mundo não rodava em torno do seu umbigo. Enfurecia-se, rodeava-se de demônios, perdia o controle, melindrava-se, causava pânico, celebrava o terror com gritos e gemidos agudos e afiados.
Era o gênio do mal encarnado na tão deliciosa e inebriante figura.
Acalmá-la era tarefa árdua, pois a criatura detinha-se frustrada e amaldiçoada pelo cosmos por um longo tempo.
Por fim, o espírito das trevas dava lugar a encantadora e sedutora persona.
Voz aveludada, sorrisos tentadores e cativantes reapareciam pelos lábios de Amaya.
Amaya foi uma criatura produzida, infernalmente, dentro do inconsciente, vinha das entranhas primitivas, com a única finalidade de atormentar os já sem equilíbrio, aqueles que não têm igualdade de forças, os desassossegados e desamparados.
Criada e cravada na cratera da dissimulação e persuasão.
Atolada, atochada e abarrotada de máscaras demoníacas.
Enterrada, escavada e esquecida na casa e na cadeira vazias.
Cuida-te, equilibra-te, permanece com tuas forças iguais e unidas.

Cismada, desconfiada, meditativa, com um idéia fixa e até um pouco desorientada.
Estamos todos crescendo.
Meus olhos desnudam a insensata ocasião com certa surpresa e embaraço.
A percepção do real é um tanto quanto alienada e imprudente, mas bendita.
Não desejo me perder, mas também não me toleraria presa e cativa do tempo.
A coisa já está feita.
Anseios para meu infinito particular são manter-me inabalável comigo mesma; porém, buscar de modo investigativo e incessante, esse novo e intrigante capítulo da vida.
Fabulosamente irreconhecível, sem barreiras ou cercas capazes de me manterem encarcerada ao meu antigo Eu.
Vejo emergir uma versão original e inexperiente de mim.
Uma mistura atraente e simpática de uma séries de mulheres minhas e alheias. Ressurjo, recrio-me abstrata e concretamente a partir de exemplos e modelos que, eventualmente, me seduzem ou fascinam.
Como um quebra-cabeça, vou coordenando cores, aromas, amores e arrumando minhas gavetas.
Sem muito cuidado em seguir a direção correta, mas nunca desapontada com os caminhos escolhidos e impostos. Lá vou eu.
E vou comigo, com você, com ela, com ele, com todos e todas, nem sempre para o ponto certo, mas lá vou eu.
Lá vou eu sem rumo, sem presenças e vexada por chegar.
Lá vou eu. A nova e a antiga. A misturada e a acumulada. A exagerada e a oprimida. A arrogante e a dominadora.
O tempo teima em me levar, mas também o arrasto comigo. Sobrecarregada com seus efeitos em minha epiderme e órgãos.
Então, lá vou eu e lá vamos nós. Lá vai você, lá vai ela, ele e todos que decidiram-se pela vida.

Rute é uma balzaquiana, mulher bem resolvida, muito articulada e suave.
Hoje, depois de um extenuante dia no trabalho, está entre amigos mais uma vez. Mas, agora para comemorar a compra do seu dois quartos no Leblon. Enfim saiu. Após uma estressante batalha de negociações com o proprietário.
Está no auge da sua beleza e profissão. Muito trabalho, muita determinação, muita diversão, muitos restaurantes, muitas boates, muitos amigos, muitos bate-papos, muitas viagens, muitos sapatos, bolsas, roupas, perfumes e jóias. Ela não admite, nem tem tempo para as derrotas, mesquinharias e dramas.
Dedicada e cândida no seu ofício, indispensável para a família, amiga das amigas, voraz consumidora, ávida pela moda e beleza, fiel ao estilo de vida que sonhou quando menina. Absolutamente livre e soberana no seu modo de viver. É uma mulher ambiciosa, preserva sua aparência social, nada religiosa e cheia de caprichos.
Não tem bolsas, tem Louis Vuitton; não usa óculos, usa Gucci; não se maquia, aplica Lancôme; não se veste, traja-se "by Nicole Miller". Mima-se, paparica-se, dá-se o direito de adquirir bens, os mais supérfluos possíveis, mas considerados por ela básicos para sobreviver.
A luz incomoda. Café faz parte da sua rotina. Sapatos podem até machucar, mas tirá-los jamais. Necessaire é artigo de primeira necessidade. Acender o fogão dói, ligar a máquina de lavar causa tédio e fazer a cama quando acorda é inoportuno. Sutil e delicada, fútil jamais.
Amantes e amores ela os teve e ainda os tem. Uns arrasadores, arrebatadores e selvagens, outros brandos, atenciosos e meigos. Porém, devido à sua instabilidade, inconstância, indecisão e vulnerabilidade, não tem sido capaz de cuidar, alimentar e sustentar seus relacionamentos.
Ela quer uma pessoa que "caiba nos sonhos dela", um homem irreal, alguém que seja capaz de ser muitos em um só; um companheiro, um cavalheiro, um Don Juan, um go-go boy, um amigo, um pai, um irmão, um músico, um cantor, um dançarino.
Ela sonha em montar o seu próprio homem, como se pudesse pegar um "tiquinho"de cada um de seus amores e ir juntando pedacinho por pedacinho até chegar ao seu par ideal, Seu Príncipe.
Não é possivel ter tudo, não é possível ser tudo, simplesmente não é possível ...
O improvável é fato, o impossível é dado.
Corram, procurem por ela, chamem seu nome bem alto e digam à ela que ainda é possível ser feliz, antes que o tempo, que é impiedoso, corroa a beleza e leveza que ela traz em si!
Apaguem as luzes, abram os portões, deixem-na entrar, tragam as frutas, neguem café e convoquem-na para a felicidade.
E, depois que ela acordar, por favor mandem me chamar.

Vez ou outra eu ouvia falar dela.
Eram quase sempre notícias estapafúrdias e desconectadas da realidade. Na minha ignorância, entendia aquela mulher como uma pessoa lúdica e/ou extravagante, aquele tipo de pessoa que quando chega, CHEGA.
Tudo o que chegava aos meus ouvidos vinha de um grupo seleto de pessoas muito jovens, o que me fazia crer que algo estava um "tiquinho" aumentado ou mesmo fantasiado, fruto da juventude e entusiasmo dos narradores.
Enquanto relatavam as experiências dela, as mais improváveis e inadmissíveis para qualquer ser humano normal, eu via brilho, assombro, espanto e até uma pontinha de admiração em seus olhares.
É chegado o dia de conhecê-la !
Muito estranha a criatura. Em alguns minutos enumerou mais de vinte ou trinta casos tristes de sua vida, lastimou-se do ex-marido, relatou segredos familiares, esvaziou, sem dó nem piedade, seu movimento existencial em cima de mim. Porém, ao mesmo tempo que parecia sacrificada e imolada, vangloriou-se de feitos que, para meus sentidos auditivos e sensitivos, soavam como aberrações, tolices ou eventos contrários a razão.
Surpreendi-me!
Com o passar de nossa ligação, foi ficando muito claro, para mim, a doença da coitada. Uma doença que jamais teria cura, uma doença que abateu toda a família . Uma doença que ela ia transmitindo, em doses homeopáticas, ao marido, ex-marido, amigos, amantes, filhos e todos mais que, porventura, cruzassem seu caminho.
A doença do vazio interno e interior. A doença da própria pena, da chantagem emocional, que, inevitavelmente, tem como foco secundário a solidão solitária, só e sozinha! Essa pobre mulher habita-se num deserto descampado e despovoado.
Penalizei-me!
A senhora deste conto escolheu viver numa terra utópica, criada por ela mesma com, é claro, brutais e segundas intenções de confundir, sem muito esforço, a individualidade privada de todos os membros de sua quimérica confraria.
É uma personagem em sua própria vida, é uma caricatura de um saltimbanco, é uma dama burlesca.
Vaga só e única, com seu ponto central - seu umbigo,resultado do corte do cordão umbilical.
Resiste e sobrevive afastada da convivência social real, sem nunca ter compreendido o poético e o intuitivo.
Pobre atriz, sustenta a maquiagem, os cabelos e as roupas que a compõem.
Porém. pouco produtiva, estéril de sentimentos, nenhum filho, nem o livro, nem a árvore.

É, realmente, ela não tem cura!
É assim mesmo, emoção do corpo, da alma e do espírito. Uma totalidade de sentimentos, uns lógicos e outros nem tanto. Mas sempre sentimentos, na maioria dos seu íntimos momentos, bons e brandos.
Não acredita nos quadrados, sempre nos círculos, ciclos, alterações, sucessões, períodos repetitivos de vidas presentes, passadas e futuras.
Ela é pura intuição, energia. Ela é totalidade de VIDA, ida, Davi, vai, diva, via, dia e tantas quantas outras palavras for possível se formar com as letras de VIDA.
Ela o vivo, o vermelho, o sol, o fogo, a ação, o movimento, a roda, o diurno e o solar.
Nada passa desapercebido pelos olhos, atentos, desta mulher.
Guerreira e medrosa, exemplo; porém, cheia de erros, harmonica e irregular, estruturada e ainda em processo. Símbólica e metafórica, ela entende o giro da renovação e do triângulo.
E ela renasce, renova-se, ressurge, ressuscita, revela-se, recomeça e se repete a cada dia quando o sol brota lá no oriente de sua essência animal.
Acomodada, resignada e adaptada à sua ressurreição diária, equilibra seus potenciais sem receios de censuras... Hospeda-se em si mesma, vai de encontro ao silêncio e à serenidade e, então assossega-se. Encontra-se em estado de estar só e plena. Sente a volúpia e o divertimento do antagonismo e da rivalidade de sensações em seu Self.
Ela é o agente psicótico de cada um de nós, de peito aberto ela se expõe, se abre para o outro, se dá sem medos e, ainda assim, ousa querer ser única e ímpar. Alcança proposta do seu âmago inicial de patida.
É capaz de ser impulsiva e comedida ao mesmo tempo. Porém, pede licença para seu ser primeiro para olhar, sentir, cheirar e tocar todo e qualquer estímulo fragmentado vindo do mundo exterior. Só depois de minucioso exame ela projeta o inteiro. E apodera-se do caos e o reorganiza. Pelo simples prazer de ir de encontro do desestruturado.
Nem poderosa nem pequenina. Apenas o mito MULHER.
Ela é da cor da alma, da libido e do coração. Ela é a sua imagem de mutação, imagem dos que querem a liberdade de amar e o prazer de serem SERES.
Ela constrói e demoli conceitos e (pré) conceitos todos os dias.
Por fim, ela se mostra como a dinâmica das relações de todos nós com o grande universo que nos sustenta vivos e unidos, apesar das distâncias físicas, quânticas e matemáticas.

Determinou-se um cineminha cult depois do trabalho.
Filme escolhido - Wild Strawberries de Bergman.
Sentou-se na sala de projeção, quase vazia, num cantinho frio e bem abandonada.
Belinha queria assistir alguma coisa densa, que lhe fizesse pensar, analisar, refletir, ponderar.
Sucesso absoluto!
Saiu do cinema quase meia noite numa deprê absurda. Viu-se no sonho do velho solitário, reconheceu-se na falta de ponteiros dos relógios, enxergou com assombro seu rosto de morte visto por ela mesma, com o mesmo terror do ancião protagonista do filme.
O trajeto para casa foi um "pensar" só. O filme lhe trouxe um tornado repleto de pensamentos duvidosos à respeito de sua existência.
Estaria ela vivendo de acordo com suas projeções juvenis? Nutria-se de elementos valiosos para não deixar-se apodrecer na solitude amarga e dura vivida pelo ator do filme? Belinha teria forças para enfrentar a deteriorização e o enfraquecimento de sua matéria? Teria ela construído bases sólidas para agüentar todo e qualquer intempério da sua própria natureza mãe?
Ao entrar em sua toca aconchegante, percebeu-se só, num universo que ela, mesma, havia construído apenas para si, viu-se mutilada de companhia, profundamente enraizada numa solidão silenciosa, quase morta.
Mas ela absorta em reflexões, sabia a razão primeira para todo esse acabar existencial e abafado.
Vivera até agora à procura do que não há por si só nem tempo todo. Percebera que seus atos, mesmo os mais insignificantes, tiveram efeitos recíprocos nos elementos que a cercaram e, com isso cada elemento seu ou alheio fora modificado também. E nem sempre essas modificações lhe trouxeram alegrias.
Por fim, deitou-se e entendeu-se uma tola que, passara a vida vasculhando em outrem ou no "em-torno" a felidicade, que só caberia e estaria dentro dela. Tolerou-se.
Entretanto, sentenciou-se, consciente, a transpor suas paredes sólidas e em sono profundo caminhou ao encontro de seu inconsciente.
Sem resistências, buscou viver sua totalidade sem sombras e monstros externos. Buscou dentro de si sua imagem virtual, comprometeu-se a não culpar ninguém pelo que fosse visto, estaria ultrapassando seus dados "irreais" e fazendo, pela primeira vez, contato com arquivos pessoais, realmente, reais.
A manhã chegou e Belinha era outra.
Viu-se bela apesar de nenhuma maquiagem, viu-se fluindo intuitivamente, amou-se sem precisar de aparatos externos, quis-se por inteira sem ter que ter alguém que a quisesse. Ela era ela e ponto final.
E em suas deduções empíricas, percebeu-se livre, intimamente ligada ao seu ser, empenhada em destruir qualquer matéria que pudesse lhe causar dano. E interessou-se em arquitetar, juntar peças e renovar toda substância e elemento sustentáveis que lhe fosse agregar algo de bom para sua existência.
Belinha chegou ao escritório sorridente e bastante disposta ao trabalho.
Seguiu para sua sala em passos de contentamento.
Sentou-se e, desta vez, entendeu-se traduzida.